Mariana Coelho Lima
Misleine Andrade F Peel
João de Deus Leite
19/12/2025
A história do município tocantinense de Piraquê começou no final da década de 1950, período em que as famílias, como os Modesto, Madeira, Barbosa e Ribeiro Lima, migraram para a região. Esses novos habitantes vieram de variados pontos do Brasil, incluindo o sul de Goiás, o norte de Minas Gerais e estados do Nordeste, como Maranhão, Piauí e Ceará. O principal atrativo para esses migrantes era a vasta disponibilidade de madeira e as grandes extensões de terras devolutas. Em 1966, o Sr. Zeca Batista e sua família chegaram ao povoado, e ele posteriormente se tornou o primeiro prefeito eleito da cidade, cumprindo mandato de 1993 a 1996. O topônimo “Piraquê” é derivado da palavra “poraquê”, que designa um peixe elétrico comum nos rios amazônicos. A escolha do nome se deu pela grande presença desse peixe nos córregos da área. Assim, a fundação de Piraquê é caracterizada pela confluência de famílias de diferentes origens, pela exploração madeireira inicial e pela influência do “peixe elétrico” local na denominação do município (IBGE, 2023).
Com uma área territorial de 1.363,412 km² (IBGE, 2023). Piraquê é classificado como um centro local de baixa influência nas áreas vizinhas, estando situado nas proximidades de Araguaína, Tocantins. Sua atração regional é notável, sobretudo, no setor de cultura e lazer. O Produto Interno Bruto (PIB) municipal é de aproximadamente R$ 89,9 milhões. A estrutura econômica de Piraquê é predominantemente agropecuária, responsável por 61,7% do valor adicionado. Em seguida, a administração pública contribui com 29,6%, os serviços com 7,1%, e a indústria com 1,6%. Com essa composição econômica, o PIB per capita de Piraquê atinge R$ 29,6 mil. Este valor é inferior à média estadual (R$ 32,2 mil), mas supera a média da pequena região de Araguaína (R$ 28,2 mil). O município registra 502 empregos formais. A maior parte da força de trabalho formal está concentrada na ocupação de seringueiro (273 trabalhadores), seguida por trabalhador agropecuário em geral (84) e vendedor de comércio varejista (66). A remuneração média desses trabalhadores com carteira assinada é de R$ 2,1 mil, um valor inferior à média estadual de R$ 3,2 mil (Caravela, 2025). No Mapa 1 está a localização geográfica do munícipio.
Mapa 1 – Localização geográfica do munícipio de Piraquê

Fonte: elaborado pelos autores em conformidade com os dados do IBGE (2018;2021) e Google Satellite (2024).
O crescimento populacional revela uma tendência de desaceleração demográfica em todas as esferas geográficas apresentadas, acompanhando o padrão nacional.
O Brasil viu sua taxa de crescimento cair de 12,34% (2000-2010) para 6,46% (2010-2022). Embora a Região Norte e o Tocantins mantenham um crescimento acima da média nacional, também enfrentam uma redução no ritmo: a Região Norte caiu de 23,04% para 9,39%, e o Tocantins, de 19,56% para 9,25%.
No entanto, a Região de Influência Imediata de Araguaína (RIIA) destaca-se por uma queda abrupta e significativa no crescimento. Após registrar uma taxa próxima à média estadual no primeiro período (19,4%), a RIIA despencou para apenas 5,1% no segundo. Esse desempenho, que é notavelmente inferior ao do estado de Tocantins (9,25%), sugere que a dinâmica populacional da RIIA está sendo negativamente influenciada pela forte migração interna. A concentração de serviços na cidade polo, Araguaína (que cresceu 13,8% no segundo período), atrai a população das cidades pequenas, intensificando o desenvolvimento desigual (Lima, 2025).
O caso de Piraquê é o mais dramático e emblemático dessa dinâmica de disparidade. No período 2000-2010, Piraquê foi um dos municípios que mais cresceu na RIIA, registrando uma expansão de 23,72%. No entanto, no período subsequente (2010-2022), o município sofreu um decréscimo populacional maciço de -21,84%, conforme a comparação do crescimento populacional no Gráfico 1 abaixo.
Gráfico 1- Crescimento populacional comparativo de Piraquê

Fonte: elaborado pelos autores em conformidade com os dados do DATASUS (2022).
Esse decréscimo coloca Piraquê como uma das cidades que mais perdeu habitantes na RIIA, juntamente com Babaçulândia e Arapoema. Essa inversão extrema — de forte crescimento para decréscimo severo — reflete as disparidades regionais e a atração exercida por centros mais desenvolvidos, impactando diretamente o planejamento urbano e a oferta de serviços na pequena cidade (Lima, 2025).
A afirmação de que Piraquê foi o “segundo município em maior índice de decrescimento populacional” requer uma verificação no Gráfico 2.
Gráfico 2 – Taxa de crescimento populacional 2010-2022

Fonte: elaborado pelos autores em conformidade com os dados do DATASUS (2022).
Piraquê é o segundo município com o maior índice de decrescimento populacional positivo na segunda década, ficando atrás de Babaçulândia (1º). Ademais, apresentaremos as taxas de Nascimentos e de Óbitos em Piraquê (2010-2022).
Gráfico 3 – Dados de nascimento e de óbitos em Piraquê

Fonte: elaborado pelos autores em conformidade com os dados do DATASUS (2022).
A análise dos dados de nascimentos e óbitos do município de Piraquê, no período de 2010 a 2022, revela uma flutuação considerável em ambas as variáveis, sem uma tendência de crescimento ou decréscimo consistente ao longo dos anos.
O número de nascimentos em Piraquê oscilou significativamente ao longo dos treze anos analisados. O ano com o maior número de nascimentos foi 2017, com 47 registros, seguido de 2013, com 42. Em contraste, os anos com a menor taxa de nascimentos foram 2015, 2016 e 2020, todos com 32 e 30 registros, respectivamente. Notamos que, após o pico em 2017, houve uma queda brusca em 2018 (30 nascimentos), seguida de uma recuperação parcial nos anos subsequentes (36 em 2019 e 37 em 2021). No final do período, em 2022, a taxa se manteve relativamente baixa, com 33 nascimentos, indicando que a capacidade do município de sustentar altas taxas de natalidade é instável.
A mortalidade em Piraquê também apresentou variações anuais, mas em uma escala menor comparada aos nascimentos. O ano com o maior número de óbitos foi 2018, registrando 20 mortes, o único ano a atingir essa marca. Por outro lado, 2015 foi o ano com a menor taxa de óbitos, apenas 3 registros, o que representa um ponto atípico no período. Em geral, a maioria dos anos registrou óbitos entre 7 e 15. É interessante notar que, no ano de pico de nascimentos (2017, com 47), os óbitos foram de 13; no entanto, em 2018, quando os nascimentos caíram drasticamente para 30, os óbitos atingiram o máximo de 20. O último ano analisado, 2022, registrou 15 óbitos, o que está dentro da faixa de variação média observada para o município.
Dessa forma, é necessário apresentar o Índice de Envelhecimento (IE), que é um indicador demográfico que mede a proporção de idosos em relação à população jovem em um determinado local, conforme demonstrado no Gráfico 4.
Gráfico 4 – Índice de envelhecimento em 2022

Fonte: elaborado pelos autores em conformidade com os dados do DATASUS (2022).
Dizer que o Índice de Envelhecimento do município de Piraquê é de 71,6 significa que, para cada 100 jovens (população com 0 a 14 anos de idade) residentes no município, existem aproximadamente 72 idosos (população com 60 anos ou mais).
Esse índice elevado está associado à baixa taxa de natalidade e, principalmente, à emigração de jovens e adultos em idade produtiva. No contexto da Região de Influência Imediata de Araguaína (RIIA), essa dinâmica é explicada pela teoria do desenvolvimento desigual: Araguaína, um centro maior com mais recursos e oportunidades, drena a população dos municípios vizinhos (Lima, 2025).
A perda de população jovem e adulta em Piraquê é confirmada pelo seu baixo percentual de crianças na primeira infância (apenas 0,73% do total da RIIA em 2022), indicando o esvaziamento da base da pirâmide etária (Lima, 2025).
Consequentemente, o IE de 71,6 exige que o município de Piraquê direcione mais recursos para atender às necessidades da população idosa (saúde e assistência social), enquanto sua base produtiva (jovens adultos) se mantém reduzida. Em suma, Piraquê está envelhecendo rapidamente, impulsionado pela migração de jovens em busca de melhores oportunidades fora do município.
REFERÊNCIAS
CARAVELA. Uma nova forma de pesquisa de mercado. 2025. Disponível em: https://www.caravela.info/. Acesso em: 11 dez. 2025.
DATASUS. http://tabnet.datasus.gov.br/cgi/tabcgi.exe?sinasc/cnv/nvto.def. Acesso em 11 dez. 2025.
GOOGLE SATELLITE. Google Earth. 2024.
IBGE. Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística. Cidades e Estados. 2023. Disponível em: https://www.ibge.gov.br/cidades-e-estados/to/araguaina.html. Acesso em: 11 dez. 2025.
IBGE. Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística. Malhas Territoriais. 2018;2021. Disponível em: https://www.ibge.gov.br/geociencias/organizacao-do-territorio/malhas-territoriais/15774-malhas.html. Acesso em: 16 maio 2023.
LIMA, M. C. Planejamento urbano e desenvolvimento desigual para a primeira infância na região de influência imediata de Araguaína. 2025.270f. Dissertação (Programa de Pós-graduação em Demandas Populares e Dinâmicas Regionais) – Universidade Federal do Norte do Tocantins, Araguaína, 2025.